Quanto o vácuo poupa no pelotão de bike? O que a física mostra e onde ficar no pedal em grupo
Muito. No meio de um pelotão grande, o ciclista enfrenta só 5 a 7% da resistência do ar que teria pedalando sozinho, segundo a maior simulação já feita sobre o tema, com 121 ciclistas. Atrás de uma única roda, colado, o ganho fica entre 14% e 27%, conforme a posição no guidão. E quem puxa também ganha um pouco: até 2,6% a menos de resistência só por ter alguém logo atrás.
Todo mundo que já pedalou em grupo sentiu: atrás de uma roda, o mesmo ritmo cansa menos. O que pouca gente sabe é o tamanho dessa diferença, e que ela muda conforme a distância, o lugar no grupo e até a posição do corpo de quem vai atrás. A física do vácuo foi medida em túnel de vento e em supercomputador, e os números ajudam a pedalar melhor no pedal de sábado.
Quanto o vácuo economiza atrás de uma única roda?
Em 2013, o engenheiro belga Bert Blocken e colegas simularam dois ciclistas, um atrás do outro, com as rodas a 1 cm de distância, e conferiram parte do resultado em túnel de vento (Blocken e colegas, Computers & Fluids, 2013). Quem vai atrás teve 27,1% menos resistência do ar com as mãos em cima do guidão, 23,1% com as mãos embaixo e 13,8% na posição de contrarrelógio.
| Situação | Resistência do ar, comparada a pedalar sozinho |
|---|---|
| Sozinho | 100% |
| Atrás de uma roda, mãos em cima do guidão | 72,9% |
| Atrás de uma roda, mãos embaixo do guidão | 76,9% |
| Atrás de uma roda, posição de contrarrelógio | 86,2% |
| Na frente, com um ciclista colado atrás | 97,4% a 99,2% |
| Meio e fundo de um pelotão de 121 ciclistas | 5% a 7% |
A conta da tabela é aberta: 100% menos a redução medida em cada caso. Um detalhe que chama atenção: quanto mais aerodinâmico está quem vai atrás, menor o ganho do vácuo, porque ele já corta pouco vento sozinho.
Por que no meio do pelotão quase não tem vento?
Em 2018, a mesma equipe montou a maior simulação esportiva da época: dois pelotões de 121 ciclistas, conferidos com maquetes em túnel de vento (Blocken e colegas, Journal of Wind Engineering and Industrial Aerodynamics, 2018). No meio e no fundo do grupo, a resistência caiu para 5 a 7% da de um ciclista sozinho. Os estudos anteriores, feitos com grupos pequenos, estimavam 50 a 70%.
Segundo o comunicado da universidade, quem roda no meio de um pelotão a 54 km/h sente o vento de quem pedala sozinho a 12 ou 15 km/h (EurekAlert, Universidade de Tecnologia de Eindhoven, 2018). O próprio Blocken avisou que isso não quer dizer que um amador consiga acompanhar o pelotão profissional: o vácuo ajuda, mas a perna ainda precisa sustentar a velocidade nas curvas, nas subidas e nas acelerações.
Quem puxa o grupo também ganha com o vácuo?
Ganha, e é a parte que quase ninguém conta. O ar que se acumula atrás de um ciclista sozinho puxa ele para trás. Com outro ciclista colado ali, essa zona de baixa pressão diminui, e quem vai na frente sente de 0,8% a 2,6% menos resistência, conforme a posição (estudo de 2013). É pouco perto do ganho de quem vai atrás, mas mostra que pedalar em grupo não é só favor para quem está na roda.
A que distância ficar da roda da frente?
O ganho cai conforme a distância aumenta, e o estudo de 2013 mostra isso nas duas pontas: tanto quem vai atrás quanto quem vai na frente perdem vantagem quando as rodas se afastam. Os números da tabela valem para 1 cm, condição de laboratório. Na rua, a distância segura depende de experiência, do piso e do grupo, e meio metro a um metro é o normal de quem pedala junto há tempo.
- Nunca sobreponha a sua roda dianteira à traseira de quem vai na frente: um desvio dele derruba você.
- Olhe dois ou três ciclistas à frente, não só a roda colada, para ver a freada antes.
- Avise buraco e freada com a mão ou com a voz, e não freie seco no meio do grupo.
- Faça puxadas curtas e saia para o lado do vento, para quem vem atrás assumir sem tranco.
Em prova de triathlon para amadores, o vácuo na bike é proibido, com distância mínima e tempo para ultrapassar definidos no regulamento. Os detalhes estão em o erro mais comum na primeira prova de triathlon.
O que muda no corpo num pedal longo em grupo?
Com menos vento no rosto, o grupo anda mais rápido e mais longe, e o pedal de três horas vira de quatro ou cinco. É mais tempo de sol nos braços, na nuca e nas pernas, e mais tempo de bermuda roçando na virilha. Antes de sair, o protetor vai no corpo inteiro que fica de fora da roupa, e o antiatrito vai nos pontos de contato com o selim.
Para os pontos de contato, use Antiatrito Stick. O kit completo de quem pedala está no Guia Rosa V de Bike.
Fontes: Blocken B. e colegas, «CFD simulations of the aerodynamic drag of two drafting cyclists», Computers & Fluids 71, 2013; Blocken B. e colegas, «Aerodynamic drag in cycling pelotons: new insights by CFD simulation and wind tunnel testing», Journal of Wind Engineering and Industrial Aerodynamics 179, 2018; comunicado da Universidade de Tecnologia de Eindhoven, 2018. Percentuais da tabela calculados pela Redação a partir das reduções publicadas.

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