Vale nadar no pé de alguém na água aberta? O que o vácuo poupa na natação e onde se posicionar
Vale, e muito. Nadar colado no pé de outro nadador, a até meio metro dos dedos dele, reduz a resistência da água em cerca de 20%, segundo o estudo de referência sobre o assunto. Ao lado, na altura do quadril de quem vai na frente, a economia cai para 6% a 7%. O coração bate mais devagar, o lactato fica mais baixo e a braçada rende mais com o mesmo esforço.
Quem nada travessia ou triathlon conhece a cena: na largada todo mundo briga por espaço, e dez minutos depois forma-se uma fila de toucas, uma atrás da outra. Não é por acaso. Quem vai na frente abre caminho na água, e quem vem atrás nada num rastro mais fácil. No ciclismo isso tem nome conhecido, o vácuo, e a gente já mostrou a conta dele em quanto o vácuo poupa no pelotão de bike. Na natação a física é parecida, mas o lugar certo é outro, e errar a posição custa caro.
Quanto o vácuo poupa na natação?
O trabalho mais citado é de Jean-Claude Chatard e Barry Wilson, publicado na Medicine & Science in Sports & Exercise em 2003 (Drafting distance in swimming). Onze nadadores nadaram 4 minutos a 95% do ritmo do seu melhor 1.500 m, sozinhos e depois atrás de outro nadador, a 0, 50, 100 e 150 cm dos pés dele. Em seguida, os pesquisadores rebocaram os nadadores nas mesmas posições para medir a resistência da água.
| Posição em relação a quem vai na frente | Redução da resistência da água |
|---|---|
| Colado nos pés (0 cm) | 21% |
| A 50 cm dos pés | 20% |
| Ao lado, 50 cm atrás das mãos | 6% |
| Ao lado, 100 cm atrás das mãos | 7% |
Em todas as posições atrás, o consumo de oxigênio, a frequência cardíaca, o lactato no sangue e a sensação de esforço caíram em relação a nadar sozinho. A frequência de braçada também caiu e o comprimento de cada braçada aumentou: com menos água para empurrar, cada puxada leva o corpo mais longe. A conclusão dos autores é direta: o melhor lugar é de 0 a 50 cm dos pés de quem vai na frente.
A economia na água continua valendo depois que você sai do mar?
Para o triatleta, sim. Um grupo francês testou exatamente isso (Delextrat e colegas, 2003): oito triatletas bem treinados nadaram 750 m em ritmo de prova, de neoprene, uma vez sozinhos e outra no vácuo, e depois pedalaram 15 minutos a 75% da potência aeróbica máxima. Depois da natação no vácuo, a eficiência na bike foi 4,8% maior. Os autores atribuem parte do efeito à intensidade mais baixa da natação: quem nada no rastro chega à transição menos gasto.
Em português claro: o vácuo da natação não ganha só segundos na água. Ele guarda perna e fôlego para a parte mais longa da prova.
Onde se posicionar para pegar o vácuo na água aberta?
A tabela acima já responde o principal, mas na prática vale entender as duas opções:
| Posição | Vantagem | Cuidado |
|---|---|---|
| Atrás, nos pés | A maior economia, cerca de 20% | Encostar nos pés da pessoa a cada braçada irrita e pode render um chute. Fique perto, sem puxar o tornozelo. |
| Ao lado, na altura do quadril | Economia menor, de 6% a 7%, mas real | Você respira olhando para a pessoa, e fica mais fácil de manter quando a água está mexida. |
Um detalhe que pouca gente percebe: de lado, a economia aparece quando a sua cabeça fica atrás das mãos de quem vai na frente, não emparelhada com a dele. Lado a lado, ombro com ombro, vocês dois empurram a mesma água.
O que ninguém te conta sobre nadar no pé de alguém?
Que o vácuo só vale se a pessoa da frente nada para o lugar certo. Quem segue um pé cegamente segue também o erro de navegação dele, e nadar torto já custa caro por conta própria, como a gente mostrou em quantas braçadas dar entre uma olhada e outra. A regra de quem nada bem em grupo é simples: aproveite o rastro, mas continue olhando para a boia de tempos em tempos. Se a fila desviar, saia dela.
Outra coisa: o vácuo funciona melhor com alguém um pouco mais rápido que você. Atrás de um nadador mais lento você ganha conforto e perde tempo. Atrás de alguém muito mais rápido você estoura o fôlego tentando acompanhar e é largado. O pé ideal é o de quem nada no seu ritmo de prova ou um pouco acima.
Pode nadar no vácuo na prova de triathlon?
Na natação, sim. O vácuo proibido para o amador no triathlon é o da bike, nas provas sem vácuo liberado. Na água, nadar no pé de alguém faz parte da prova, e os melhores amadores treinam isso. Nas travessias e maratonas aquáticas também vale. O único ponto em que a fila atrapalha é a boia, onde todo mundo se espreme na mesma curva; ali vale o que a gente explicou em como contornar a boia na água aberta.
Como treinar o vácuo antes da prova?
Três exercícios simples, para fazer com um ou dois parceiros de treino:
| Exercício | Como fazer |
|---|---|
| Fila de três | Em série de 200 m, cada um puxa a fila por 50 m e vai para o fim. Todos aprendem a ficar perto dos pés sem encostar. |
| Troca de lado | Nade 100 m no quadril do parceiro, respirando para o lado dele, depois troque de lado. |
| Fila com olhada | No mar, nade em fila e levante os olhos para a referência a cada 6 a 8 braçadas, mesmo atrás de alguém. |
Nada disso substitui o treino de ritmo, mas faz diferença no dia: quem sabe ficar no rastro gasta menos e chega mais inteiro na saída da água. E quem fica mais tempo no mar no meio do grupo também fica mais tempo no sol: passe o Protetor Solar Corporal FPS 50 na nuca e nos ombros antes da largada e veja a preparação completa de água aberta na Guia Rosa V de Águas Abertas.

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